Tecnologias Inovadoras para Tratamento de Esgoto em Comunidades Isoladas.
- ESA jr. Engenharia Sanitária Ambiental

- 20 de ago. de 2025
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Victor Silva - 20/08/2025
Enquanto grandes cidades investem em tratamentos de esgotos milionários, milhões de brasileiros em comunidades rurais, indígenas e ribeirinhas ainda estão sem acesso à saneamento básico e convivendo com esgotos à céu aberto. Segundo informações do Instituto Trata Brasil, de 2024, apenas 10% do esgoto em zonas rurais é tratado. O Brasil possui 90 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto, os dados são do Ranking do Saneamento, nesses casos, perpetua a contaminação de fontes de águas e fortalece o ciclo de contaminantes microbiológicos.
A falta de saneamento básico, dando maior atenção ao tratamento de esgoto é um grande problema que expõe a população a diversas doenças e contaminação das fontes hídricas, diminuindo a qualidade de vida e, consequentemente, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de um país.
● Doenças: A proliferação de diarreia, cólera, hepatite A, febre tifoide, leptospirose e esquistossomose. Todas essas podem ser transmitidas pela água contaminada
● Internações: A falta de saneamento básico leva a um grande número de internações hospitalares devido a doenças relacionadas à falta de higiene.
● Mortes: Doenças de veiculação hídrica atingem, especialmente, crianças menores de 5 anos.
● Contaminação de rios, lagos, mares, lençois freáticos e solo. Contaminando fontes importantes de água potável.
Portanto, nunca será demais o investimento em saneamento básico. Além do fato de ser um direito de todo cidadão, evita doenças, mortes de pessoas e poluição das fontes de água potável. Por outro lado, os estudos em novas tecnologias de baixo custo e que sejam adaptadas à diferentes realidades é um sucesso. Trazendo soluções inovadoras para regiões onde o tratamento de esgoto ainda é uma realidade distante, cuidando da saúde das pessoas. Nesta postagem trataremos de três tipos de soluções que são Biodigestores Compactos, Banheiros Secos Compostáveis e Sistemas de Tratamento por Membranas.

Biodigestor Compacto é um equipamento que foi projetado para ser instalado nas propriedades das pessoas, sem precisar de grandes investimentos. Com ele é possível tratar resíduos através do processo de biodigestão anaeróbica, na ausência de oxigênio. Nesse processo, as bactérias decompõem a matéria produzindo biogás e biofertilizante, reduzindo a quantidade de resíduos que seriam futuramente descartados. O equipamento possui câmaras seladas que impedem vazamentos e otimizam a produção de gás, possui fácil instalação e manutenção, transformando dejetos humanos em fertilizantes ou biogás.
Esse sistema funciona em 03 etapas:
1. Digestão: Bactérias anaeróbias convertem matéria orgânica (fezes, restos de alimentos) em biogás (metano + CO2) e biofertilizante.
2. Separação: O biogás é armazenado em um gasômetro acoplado, enquanto o biofertilizante líquido é direcionado para um reservatório.
3. Reúso: O gás pode ser usado para cocção ou iluminação, e o fertilizante, aplicado diretamente na agricultura.
As vantagens desse sistema são: econômicas (preço reduzido), redução nos gastos de gás de cozinha, elimina a contaminação de lençois freáticos, reduz a eliminação de CO2 e faz com que aquela comunidade seja autossuficiente. Para a implantação desse sistema deve ser feito uma avaliação inicial e estimação da quantidade de resíduos gerada para saber a potência do Biodigestor a ser investido. O equipamento deve ser instalado corretamente e ter as manutenções periódicas.

Banheiros Secos Compostáveis são sistemas de câmaras que armazenam os resíduos durante o processo de compostagem. Após isso, esse composto é levado para uma minhocário onde é transformado de forma natural em adubo, podendo ser utilizado posteriormente na agricultura. É um sistema que não utiliza água, evitando o desperdício e o uso de descarga, eliminando os dejetos humanos de uma forma não prejudicial para o meio ambiente. O uso de serragem é interessante para evitar o mau cheiro após o uso. É um sistema fácil e barato, muito usado em zonas rurais nordestinas, onde a seca e falta de esgotamento básico é uma realidade.
Por ser um sistema que revoluciona o saneamento sem água e substitui o vaso sanitário convencional, transformando os dejetos humanos em adubo seguro, funciona da seguinte forma:
1. Armazenamento em câmaras: As fezes e urina são depositadas em câmaras vedadas, misturadas com serragem, cinzas ou folhas secas (materiais ricos em carbono). A serragem absorve a umidade, reduzindo odores e acelerando a compostagem.
2. Compostagem Natural: Após um período de tempo relativo (depende de diversos fatores: clima, quantidade de dejetos, quantidade de serragem usada), esses resíduos se decompões em um composto rico em nutrientes e livre de patógenos. Pode haver também o uso de minhocário para acelerar esse processo com a produção de húmus.
3. Reuso Agrícola: O composto final é seguro para uso em hortas, pomares ou reflorestamento (evitando plantas consumidas cruas, como alface).
É um sistema que não utiliza água, possui baixo custo, previne a contaminação do solo e lençóis freáticos e produz fertilizante natural que pode ser utilizado na agricultura.

No Sistemas de Tratamento por Membranas, as membranas são utilizadas para separar fases, ou seja, partículas sólidas de pequenas dimensões, óleos, microrganismos, íons e etc. Essas membranas são formadas por uma fina camada de material semipermeável, e através de sua porosidade é possível fazer uma seletividade na filtragem. Elas podem ser classificadas pelo seu tamanho e tipos de substâncias que serão filtradas:
1. Microfiltração: Remove partículas maiores, como bactérias e sólidos suspensos.
2. Ultrafiltração: Remove partículas menores, como vírus e macromoléculas.
3. Nanofiltração: Remove sólidos dissolvidos, sais e moléculas orgânicas.
4. Osmose inversa: Remove a maioria dos sais dissolvidos e moléculas orgânicas.
Esse processo é vantajoso pela sua alta eficiência, redução de espaço ocupado, produz um efluente de alta qualidade que pode ser usado para diferentes condições a depender do padrão de qualidade necessário e tudo isso com baixo consumo de energia. Portanto, soluções existem e estão disponíveis para serem usadas em diferentes regiões do Brasil. Apesar desse potencial, o uso dessas tecnologias acabam sofrendo com alguns obstáculos que são: Resistência de uso das pessoas, falta de investimento inicial, falta de técnicos qualificados para adaptar os projetos e fazer a manutenção dos mesmos.
Levar esgotamento sanitário digno para as pessoas é uma questão de saúde pública, evitando mortes de pessoas e contaminação de água que serão utilizadas posteriormente para o consumo. Gerando problemas maiores e gastos com internações hospitalares. Ficando na responsabilidade do estado garantir essas soluções.
REFERÊNCIAS:
1. INSTITUTO TRATA BRASIL. Ranking do Saneamento 2024. 2024. Disponível em: https://tratabrasil.org.br/ranking-do-saneamento-2024/. Acesso em: 23 jun. 2025.
2. VARELLA, Drauzio. Quais doenças podem ser causadas pela falta de saneamento básico?
Saúde Pública. UOL, [s.d.]. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-publica/quais-doencas-podem-ser-causadas-pela-falta-de-saneamento-basico/. Acesso em: 23 jun. 2025.
3. INSTITUTO TRATA BRASIL. Saneamento e saúde: Como a falta de acesso à infraestrutura básica afeta as incidências de doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado no Brasil. 2025. Disponível em: https://tratabrasil.org.br/wp-content/uploads/2025/03/RELEASE-Saneamento-e-saude-Como-a-falta-de-acesso-a-infraestrutura-basica-afeta-as-incidencias-de-doencas-relacionadas-ao-saneamento-ambiental-inadequado-no-Brasil-TRATA-BRASIL.pdf. Acesso em: 23 jun. 2025.
4. BRAZILIAN MEDICAL STUDENTS (BMS). Doenças de veiculação hídrica. [s.d.]. Disponível em: https://bms.ifmsabrazil.org/bms/article/download/100/42. Acesso em: 23 jun. 2025.
5. EXAME. Um cenário que não muda no Brasil: 90 milhões de pessoas não têm acesso a coleta
de esgoto. [s.d.]. Disponível em:https://exame.com/brasil/um-cenario-que-nao-muda-no-brasil-90-milhoes-de-pessoas-nao-tem-acesso-a-coleta-de-esgoto/. Acesso em: 23 jun. 2025.
6. CISGA. Implantação de biodigestores em escolas apresenta resultados positivos ambientais e
econômicos. [s.d.]. Disponível em: https://www.cisga.com.br/noticias/implantacao-de-biodigestores-em-escolas-apresenta-resultados-positivos-ambientais-e-economicos. Acesso em: 23 jun. 2025.
7. SEBRAE. Economia e sustentabilidade: conheça o banheiro seco. [s.d.]. Disponível em: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/economia-e-sustentabilidade-conheca-o-banheiro-seco,009250b562d95810VgnVCM1000001b00320aRCRD. Acesso em: 23 jun. 2025.
8. FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL (FBB). Banheiro seco: alternativa ecológica no semiárido. Transforma, [s.d.]. Disponível em:
https://transforma.fbb.org.br/tecnologia-social/banheiro-seco-alternativa-ecologica-no-semiarido. Acesso em: 23 jun. 2025.
9. GLOBO ECOLOGIA. Do reuso à dessalinização: confira como água doce pode ser obtida. 2013. Disponível em:





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